A luta para controlar as Epidemias e Pandemias, como é o caso, consegue- se pela informação.

Médico Dentista e candidato à Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), Miguel Pavão é também fundador da Mundo a Sorrir, uma ONG de âmbito nacional e internacional, que desenvolve programas de saúde, educação, cooperação e apoio ao desenvolvimento sustentável das comunidades. Perante o cenário atual, dominado pela COVID-19, Miguel Pavão considera que as ONG’s são “muitas vezes o sustentáculo que permite que estas pandemias e ameaças Globais não se tornem em calamidades devastadoras, causando perdas de vidas esofrimento humano, que se traduz em pobreza, fome e conflitos sociais”.

P | Enquanto fundador de uma ONG na área da saúde (Mundo A Sorrir), que papel considera que devem desempenhar as ONG’s neste cenário de pandemia?

R | Estas crises, que numa primeira fase são apenas uma ameaça de saúde, tornam-se pela dimensão de saúde pública à escala global, em desafios difíceis económicos, políticos e sociais. A perceção contemporânea da Humanidade é que estamos sempre na vanguarda da evolução e do conhecimento, pensando sempre que o Homem está preparado para enfrentar ameaças. Mas esta pandemia da COVID-19, demonstra cruelmente que os Países não estão preparados para estes surtos de saúde pública. E nesse sentido, os
recursos e sistemas sanitários primeiro e de proteção social em segundo, não são por si só suficientes perante a magnitude do problema. Nesse sentido, as ONG’s, a vulgo sociedade civil organizada, é muitas vezes o sustentáculo que permite que estas pandemias e ameaças Globais não se tornem calamidades devastadoras, causando perdas de vidas e sofrimento humano, que se traduz em pobreza, fome e conflitos sociais.

P | Num momento em que o Ministério da Saúde pede um reforço de profissionais de saúde, que contributo considera que poderá ser o dos médicos dentistas na resposta à pandemia COVID-19?

R | Controlar o surto começa com medidas de Saúde Pública, onde o comportamento de  cada  cidadão,  por incrível que pareça é quase tão importante como o de um profissional que está nos serviços médicos intensivos. A luta para controlar as Epidemias e Pandemias, como é o caso, consegue-se pela informação. Não se controlando a proliferação e a dimensão de pessoas contaminadas, os recursos materiais e humanos não são suficientes. Os profissionais de saúde, dos quais os Médicos Dentistas fazem parte, podem e devem ser utilizados como recurso complementar à escassez e fadiga dos profissionais de saúde que estão melhor preparados para lidar com as terapias para combater esta doença viral. No meu entender, os Médicos Dentistas são um recurso  crucial  para complementar e fortalecer duas vertentes nesta luta. Numa vertente informativa que é crucial, quer através das linhas de atendimento – linha SNS 24 e LAM (Linha Apoio ao Médico) – dando orientações à população para poderem lidar com sintomas, sinais para apurar a possibilidade de doença, bem como na evolução da mesma. Por outro lado, na eventual recolha das colheitas de amostras para o diagnóstico da doença e que devem ser feitas  cada  vez  em  maior número.

P | Como vê a relação entre a Saúde Pública, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e os sistemas privados de saúde?

R | De forma pragmática vejo que tem muito para evoluir. Infelizmente, a Saúde Pública é considerada por muitos uma área acessória, sendo sempre priorizados os cuidados emergentes e assistenciais. Se a sistematização e planeamento da Saúde pública deixa ainda muito a desejar no SNS, naquilo que se considera o Sistema  de  Saúde,  que  incluí  público,  Privado  e  Social,  tem  muito  para  ser melhorado e certamente esta crise nos ajudará a valorizar mais vertentes médicas menosprezada até então.

P | Acredita que vai existir um “antes” e “depois” desta pandemia?

Não tenho qualquer dúvida. Mas se não tive o poder de a adivinhar e prever no tempo certo, também é sensato que não tenho a capacidade de dizer o que vai suceder. Posso dar palpites, consoante os dias avançam. Posso é garantir, que a Saúde e a Economia nunca andaram de “mãos dadas”. E todas as medidas tomadas para mitigar a doença, vão crescer proporcionalmente do ponto de vista do impacto económico. O conceito de Estado e Sociedade vão ser a pedra basilar para que esta ameaça   grave    se normalize mais rapidamente e leve a uma deterioração societal em menor escala.

in Atrevia